Circular Pocket

Intera traz Maringá para a rota do circuito musical independente

22/11/2017 | Texto: Rafael Pinto Donadio | Foto: Ann Alva Wieding

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Para apresentar o novo selo que surge na cidade, o Maringá Original Balanço (MOB), os idealizadores Diogo Silva, Felipe de Moraes e Rafael Morais queriam trazer para a festa de lançamento uma banda que condissesse com o objetivo que eles almejam: trazer para Maringá o que está acontecendo fora da cidade e mostrar para os de fora o que está acontecendo por aqui. Por isso a escolha da banda goiana Boogarins, que atualmente é um dos grupos brasileiros mais ativos na cena musical independente nacional e internacional.O quarteto goiano toca ao lado dos paulistas da Hierofante Púrpura na festa Intera, neste sábado, a partir das 22h, na Casa da Vó Bar.

No começo da venda de ingressos, o selo já demonstrou outro objetivo, que é o de sempre fazer algo acessível, partindo sempre da tentativa de fazer um evento gratuito. “Nós queremos ocupar diferentes lugares e fazer com que a música seja cada vez mais democrática. Tanto para quem aprecia, quanto para quem quer produzir”, disse Diogo Silva. A pré-venda para a Intera ofereceu ingressos a R$ 13, que, com taxas da internet, ficariam por R$ 15. Mostrou-se tão acessível que não durou dois dias. Esgotou, assim como o primeiro lote. O segundo agora está sendo vendido a R$ 25, pelo site www.sympla.com.br. Na portaria, o ingresso vai custar R$ 30. Barato? A resposta de Diogo Silva para a Circular foi, “se fosse mais que isso eu não iria, então faço o que dá para eu ir”.



O propósito do MOB de fazer de Maringá um polo receptivo do circuito global de música independente, traria, consequentemente, profissionais da cadeia produtiva para compartilharem seus modos de produção. “Percebemos que Maringá não estava no circuito (nacional) porque não temos nada para oferecer em contrapartida. Então, vamos começar a trazer essas bandas de fora, para intercambiar e ver como eles estão trabalhando, para, a partir disso, fazer contato e depois levar as bandas daqui para fora”, explicou Diogo Silva.




“Acho que não existe uma fórmula de como se fazer produção cultural. A gente está procurando a nossa. Nunca nos cobramos coisas fora do comum. A gente quer criar uma cena sustentável, conseguir viver disso. Essa é a meta principal”, explica Felipe.




Isso inclui não só se juntar às produtoras já existentes, como a Sonic Flower Club e a própria Circular Pocket, mas também criar e receber cada vez mais adeptos e profissionais. Um ponto em que o baterista da banda Boogarins, Ynaiã Benthroldo, concorda: quanto mais, melhor. “A existência de um mercado pequeno, médio e grande (nos EUA), que possibilita que artistas de níveis variados tenham a oportunidade de construir uma carreira dentro daquilo que ele se propõe.” Essa foi uma das razões apontadas por Ynaiã para explicar o sucesso conquistado pela banda fora do País antes que na própria terra natal. 





 



INTERA


Com um primeiro disco já no catálogo, “Paó”, de Rafael Morais Trio, seguido de alguns shows em Maringá e outras cidades, e um show realizado em Franca (SP), com Rincon Sapiência, MOB faz agora a festa oficial de lançamento do selo, a “Intera”.

A palavra “intera” é, segundo os próprios idealizadores da festa, “sinônimo de companheirismo, princípio daqueles que veem, nesta ação cooperativa, caminho para o crescimento conjunto”. Um resumo do que o novo selo maringaense propõe.

Os paulistas do Hierofante Púrpura estão no círculo da “nova psicodelia brasileira” já com bastante experiência. A banda se formou em Mogi das Cruzes (SP) em 2005 e tem no catálogo dois álbuns (“Disco Demência”, 2016, e “Transe Só”, 2011), dois EPs (“Boas Festas”, 2015, e “Asugar-Çugar”, 2006) e um compilado de canções lado b (“A Sutil Arte de Esculhambar Música Alheia”, 2014) e vêm pela primeira vez à cidade.

Também pela primeira vez em Maringá chega a Boogarins. Formada em 2012, a banda tem quatro discos (“As Plantas Que Curam”, “Manual”, “Lá Vem a Morte” – lançado agora em vinil pela Revista Noize – e “Desvio Onírico”, gravado ao vivo) e já tocou em diversos países da Europa, da América do Sul e nos EUA.

Nas infindáveis turnês da Boogarins, enquanto rumam aqui para o Sul e depois Argentina, Ynaiã conversou, por e-mails e Facebook, com a Circular, sobre as apresentações, produção do disco novo, influências e as cenas nacional e internacional. Apenas a setlist da apresentação ele preferiu deixar no suspense: “Com certeza será um show único. Temos certeza.”



- Queria começar falando do disco novo. No “Lá Vem a Morte” as músicas vieram com mais sintetizadores, soa mais como uma colagem sonora de tudo o que fizeram em Austin. Como foi o processo de produção desse disco? 
Estávamos em turnê pelos EUA a mais ou menos quatro meses. Depois desse processo, tínhamos planejado ficar um mês em Austin (TX) entre uma perna e outra da turnê. Estávamos tocando todos os sábados em uma casa de show local, o Hotel Vegas, em uma espécie de residência na casa. Com isso tínhamos uma casa alugada, onde estávamos morando e gravando. Transformamos quartos, garagem, alugamos equipamentos, e experimentamos muito a partir disso. Depois de gravarmos muitas ideias e jams, Benke brincou muito na hora de edição e mixagem do disco. A oportunidade de manipular prés amplificadores, efeitos em hacks ali na mão foi novo e instigante para nós.

- Como aconteceu a introdução dos sintetizadores? Foi algo natural ou pensado com antecedência?
Foi natural. Dentro desse nosso processo de composição e experimentações do novo disco, estávamos buscando novas sonoridades. Estávamos em um lugar propicio para a aquisição do equipamento e com tempo para experimentá-lo, foi bem natural. 

- Qual a diferença da produção desse, “Lá Vem a Morte”, para os outros dois (“As Plantas Que Curam” e “Manual”)?
A principal diferença na produção desse disco foi o fato de estarmos imersos em uma casa, vivendo junto e trabalhando juntos. Alugamos todo o equipamento, "setamos" ele nos quartos, garagem, e manipulamos equipamentos que antes só teríamos a oportunidade de ter contato em um estúdio "profissional". 

- Acho que outra coisa nova nesse disco é a sua participação (Yaniã) na composição. Aproveito para perguntar como acontecem, geralmente, as composições da banda?
Não existe uma metodologia. Geralmente alguém traz uma ideia e ficamos desenvolvendo ela em conjunto, em uma "jam", e todos contribuem com ideias. As letras geralmente partem do Dinho, mas nesse disco tem composição de todos. É um processo bem aberto e espontâneo. 

- Quais são as principais influências musicais da Boogarins (nacionais e internacionais)?
Somos bem ecléticos. Escutamos de tudo de certa forma; do baladão pop até as coisas mais experimentais, free improvisação, clássico, indie, jazz, enfim. Acho que não existe um gênero predominante. A gente curte música. Várias memórias são criadas e acessadas por ela. Cada qual em seu momento. 
 
- Quais as principais influências não musicais nas composições?
Tudo que a gente vive nos influencia. A estrada, o estar com amigos, familiares, encontros diversos, livros, filmes. Tudo influencia nesse processo. 

- Vocês não falam tão abertamente sobre drogas como a Bike, por exemplo, mas tem músicas que tocam no assunto. Posso citar a “Doce” como uma mais explícita. Qual a importância das drogas nas composições do Boogarins?
No processo de composição não existe uma dependência de substâncias. As drogas fazem parte da vida das pessoas de maneiras e formas diversas. Cada um tem uma forma muito particular de lidar com isso. Nem todos "transam" drogas e o que fica é um respeito para com o que cada um faz de sua vida acima de tudo. 

- Como muitas outras bandas brasileiras, vocês foram reconhecidos fora do País, primeiro, para depois serem reconhecidos aqui. Quais as principais diferenças que vocês enxergam na cena nacional e internacional para que isso aconteça?
A música brasileira é consumida no mundo inteiro. Assim como nós consumimos muita música de fora, em sua maioria norte americana, inglesa, de mercados mais estruturados na música pop mundial, com poder de influência muito forte no mundo todo. A maior diferença talvez seja a relação das pessoas com o consumo de música, concertos; a existência de um mercado pequeno, médio e grande, que possibilita que artistas de níveis variados tenham a oportunidade de construir uma carreira dentro daquilo que ele se propõe. O rock não é uma música popular no brasil. Nós não temos um mercado de música independente/alternativa/o que seja. Fora dos grandes centros é muito difícil de chegar. Os canais de difusão são bem limitados, o que dificulta cada vez mais a ocupação de outros espaços. Mas seguimos firmes e fortes fazendo nosso trabalho, onde quer que seja. 

- O show que vocês vão fazer aqui em Maringá faz parte do lançamento de um selo da cidade, Maringá Original Balanço (MOB). Como a criação desses selos independentes podem fortalecer a cena nacional?
Quanto mais agentes nessa cadeia nossa melhor. Todo mundo é bem-vindo, acredito eu. Os selos tem um trabalho fundamental dentro da estruturação de uma "cena", de um "mercado", difundindo e sendo parceiros de nossos artistas, dando vazão para produções que talvez tivesse um pouco mais de dificuldade de chegar nas pessoas sem essa ponte. Quanto mais selos, festivais, casas de shows e produtoras tivermos, melhor para todo mundo. 

- Este ano vocês também lançaram o “Desvio Onírico”, gravado ao vivo. Como surgiu a ideia de fazer esse registro da banda ao vivo?
Fizemos uma turnê bem extensa no ano passado. Ao todo foram seis meses e meio tocando praticamente todos os dias, em diversos lugares do mundo. Registrar os shows era algo que estávamos fazendo pelo simples fato de termos o registro dessas experiências. Posteriormente vimos que tínhamos um material bacana e que dava para pensar em um lançamento ao vivo, algo pouco comum nos dias de hoje. Existia uma lacuna entre o “Manual” até então. Achamos uma boa ideia apresentar as músicas desse trabalho de estúdio em uma outra perspectiva, nos shows, com outros arranjos, transformadas pela estrada. 

- O que existe de diferente do Boogarins no estúdio e do Boogarins ao vivo?
São dois ambientes diferentes. O estúdio é algo estático. Dá uma segurança e tranquilidade maior, talvez. Podemos trabalhar tudo com uma certa calma e tempo, que é muito diferente do ao vivo. Ao vivo existe uma interferência externa muito maior. Pessoas e ambientes diferentes a cada dia. Nós somos diferentes dia após dia. O show é uma caixa de surpresa, uma novidade a cada dia. Uma experiência única que procuramos ter sempre. 

- Vocês ainda estão na turnê do “Lá Vem a Morte”, mas vale sempre perguntar. Alguma produção rolando no momento?
Não podemos nos dar ao luxo de parar de trabalhar nunca. Somos patrões e empregados de nós mesmos. Nunca paramos. 

- Quais os planos para o futuro do Boogarins?
Nos manter firmes e fortes fazendo o que mais gostamos: tocar juntos, viver experiências novas, gravar nossos discos, expandir o raio de ação e fazer cada vez mais isso.

- Não sei se conhecem ou já ouviram falar de Maringá, mas alguma expectativa para o show?
Sempre bom tocar em alguma cidade nova, onde nunca fomos antes. Essa perspectiva nos motiva muito. Sempre bom estar em um lugar novo e ter uma nova experiência. Vai ser top! 


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