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"Minha parada é música de expansão da consciência"

10/02/2017 | Texto: Rafael Pinto Donadio | Foto: Divulgação

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Trilhando a longa caminhada na música sempre como um manifesto a favor da mente aberta, BNegão chega em Maringá pela primeira vez com o projeto Bota Som, neste sábado (21), lembrando sempre da energia dos maringaenses em shows anteriores com os Seletores de Frequência e com o Planet Hemp. E nunca esquecendo do “bar com uma caveira na parede com olhos vermelhos. A energia ali foi foda.”




“Maringá sempre foi especial mesmo, sempre senti que a galera se joga geral, e isso para mim é fundamental em qualquer coisa que eu faça, inclusive no Bota Som. Enfim, tenho a liberdade mental, física e energética para chegar junto na parada.”





Antes de chegar à cidade, e com a mesma energia, BNegão falou, por telefone, sobre o retrocesso político no País, o projeto Bota Som, legalização da maconha e novos trabalhos, fazendo questão de distinguir a sua função de bota som com a de DJ.

Como começou o projeto Bota Som?
Fui chamado para discotecar em uma festa que estava nascendo, chamada Zoeira, que depois virou uma referência nacional. Surgiu Marechal e um monte de galera boa de lá. Eu comecei a discotecar lá e deu certo e passei a ser chamado para outros lugares. E aí teve uma época que eu dei uma parada, por causa de trabalhos e tal, mas fui discotecar em Curitiba um dia e acabei discotecando 4 horas seguidas. Curitiba é um lugar que volta e meia eu bato uns recordes lá, fico 5 horas, 5 horas e meia discotecando sem parar. Depois disso me deu a pira de voltar, foi lá por 2006. Foi nessa época que o (Marcelo) Yuka surgiu com o termo. Ele veio, “como é o cara que gosta de botar som na pista mas não é DJ e nem Selectah? É Bota Som”. E aí acabou ficando. Eu sempre me incomodava com essa parada de chegar no lugar e me anunciarem como DJ, eu nunca fui DJ. E tenho um respeito danado pela cultura do DJ.

Muitos que botam som por aí se orgulham de falar que são Djs, mas você faz questão de dizer que não é. Para você, qual a importância dessa distinção?
Eu até entendo as pessoas não fazerem a distinção, porque às vezes a pessoa não está dentro da cultura hip hop. Eu estou dentro dessa parada desde 1984, sacou? Eu sei todos os fundamentos e o DJ é um dos fundamentos, um dos elementos. DJ domina as mixagens, scratchs e a porra toda e a minha parada é botar som, e funciona também, graças a Deus. E outra coisa, 99% dos DJs do Brasil são meus irmãos, então nunca eu ia chegar e falar que sou DJ.
Sempre aprendi muito com DJs e produtores, seja conhecendo uma música através de um sample, seja ouvindo um som novo numa festa, num show ou em qualquer lugar que seja. E uma das minhas grandes alegrias, com o lance do Bota Som, é ter a certeza que as pessoas saem (suadas) da festa com mais informação musical do que quando entraram. Essa é uma das missões desse esquema-noise... e é por isso que eu digo: ‘BNegron Bota Som: informação dançante desde 1998’.
 
No Planet a gente ouve a influência de “raprockandrollpsicodeliahardcoreeragga”; no The Funk Fuckers fica mais claro o funk, o groove; com o Seletores de Frequência entra o espiritual, a música de umbanda, surf music, gafieira, dub e outros. Na hora de botar o som todas essas influências estão presentes?
Tem tudo isso e um milhão de outras coisas. A parada é horizonte aberto, mente aberta. Eu escuto muito estilos de músicas diferentes. Tem gente que vai e até reclama que tem relativamente pouco hip hop. Nego espera que eu só toque hip hop.
Mas tem sido do caralho, porque eu sempre me garanto no repertório geral. Eu fico a vontade porque eu não estou vivendo disso, lógico que tem cachê e tal, mas não vivo disso, então não preciso tocar coisa que está na moda e tal. Eu toco o que eu estou afim de tocar, só toco o que eu gosto. Esse é um dos motes da parada: informação sonora, informação dançante. Toco muita coisa do que está rolando agora no Brasil, produção nacional. Minha caminhada na música sempre foi um manifesto a favor da mente aberta e saber que está rolando outras coisas fora do seu umbigo, então nego que está esperando isso de mim é porque não entendeu a caminhada.

Qual o seu pensamento na hora de escolher um set para o Bota Som?
O set é para os fortes. Pessoal mais tradicional fica bolado. Mas eu não tenho muito pensamento, faço na hora. Eu faço a discotecagem com os discos digitais, os famosos e odiados CDs. Então isso me dá a adrenalina que eu não quero perder nunca. Eu só sei a primeira música e acabou. Depois eu vou dois minutos de cada música e o objetivo é não deixar a pista ‘panguá’, com nego dançando pra caralho, gritando e o que mais tem direito. Por isso eu gosto de usar o CD, porque eu posso comprar músicas novas que eu gostei, que acabou de sair, aí gravo no CD e já coloco.

Você gravou a música “Flores e Ervas” com o Jota 3, no final do ano passado, uma música que fala sobre a legalização da maconha. Esse é um assunto que está nas letras do Planet e também nas suas e do D2. Você acha que está tendo algum avanço n assunto da legalização aqui no Brasil?
Brasil está em um momento retrógrado. São várias questões muito além. As pessoas que querem manter a proibição se alimentam da ignorância alheia, que é uma questão triste na verdade, porque as pessoas tem a parada de repelir antes de se informar. E daí tem vários caras que ganham com isso. E quem quer manter a maconha ilegal são os que ganham com tráfico e com a porra toda e neguinho não faz essas ligações. Quando você fala sobre legalização, o senso comum da população é pensar que o cara é traficante, mas é o contrário, o cara está falando contra os traficantes, é o tal do “não compre plante”. Parece que as pessoas estão com um problema de discernimento muito grande.

Algumas orquestras estão sendo fechadas pelo Brasil, outras ainda correndo o risco de acabar, aqui no Paraná a Oficina de Música de Curitiba foi cancelada este ano, um evento importantíssimo para a música paranaense. O que você acha sobre esse descaso dos políticos com a cultura?
Eu estava vendo uma entrevista do Noam Chomsky e ele estava falando que às vezes acontece uma expansão da democracia e às vezes uma contração. Agora nós estamos nesse momento de contração, retração total. E a coisa está tão bizarra que a galera mais direita está impressionada com a falta de senso mínimo da galera que tomou o poder na base do golpe. Cada cara que entra tem 30 processos nas costas, ministro da justiça com ligação com uma empresa ligada ao PCC , secretário que falou que tinha que matar mais presidiário, enfim.

Você acha que esse é um momento de músicos e artistas em geral terem mais posição, fazerem mais críticas sociais e políticas?
Eu acho que cada um tem que ter o direito de fazer o que quiser. Eu acho que a gente já tem tanta coisa que nego fica o tempo todo “pode”, “não pode”, se a gente ficar com isso na questão criativa também aí fodeu. Cada um tem que saber de si. Mas no meu caso, eu entrei na música por isso. Minha parada é música de expansão da consciência e falar sobre o que está sendo pouco falado, propor reflexão. A parada é música de mudança. Mais do que criticar até, porque criticar por criticar para mim não interessa. Sempre foi assim. E acabou que a parada deu certo, porque eu não tinha a mínima expectativa que isso fosse acontecer. Mas tem gente que não tem vontade de falar sobre nada disso e eu respeito pra caralho. Cada um tem que meter bronca do jeito que acha que é o certo. Eu acho ruim pra caralho as pessoas se omitirem, mas também é um direito delas.

Quando conversei com você no ano passado, quando fizeram o show do Planet aqui em Maringá, você comentou sobre um possível EP da banda. Tem alguma previsão sobre esse trabalho?
Não tem previsão não, está tudo do mesmo jeito. Está tudo na previsão ainda.

E trabalhos novos com os Seletores?
Esse ano nós (BNegão e Seletores de Frequência) vamos lançar dois discos. O famoso disco instrumental que a gente fala tanto. A gente lançou um EP – SF (2016) –, que seria a demo do disco e agora vamos lançar o disco mesmo. Um disco dedicado ao Funk 70’, que é uma das paradas fundamentais da gente. Devemos fazer um DVD até o final do ano, com geral dos três discos, e vamos lançar bastante vinil. E vai ter um monte de vídeo do “Transmutação” (2015). Estou fazendo a trilha sonora para um filme do Jeferson De, que se chama “Correndo Atrás” também, que sai no segundo semestre. Os discos ainda saem nesse primeiro semestre.
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BNegão se apresenta com o projeto Bota Som neste sábado (21), em Maringá. Para saber mais sobre o evento, clique aqui.



 


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