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Prata da Casa

16/11/2017 | Texto: Daniela Giannini | Foto: Divulgação

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Artistas maringaenses se destacam entre as atrações do Só em Cena, Mostra de Solos e Monólogos que começa hoje, às 20h, com o espetáculo 'Quando o Coração Transborda' no Teatro Reviver

Entre as 22 atrações do Só em Cena 2017, o público vai encontrar artistas dos mais diversos cantos do país: de Fortaleza ao Rio Grande do Sul, passando por Brasília, São Paulo, Rio de Janeiro e Curitiba, além das vizinhas Campo Mourão e Londrina. Mas Maringá não fica atrás e também vai estar muito bem representada pelos palcos e ruas durante os dez dias da mostra. Dentre veteranos com anos de experiência e jovens que estão à frente da nova cena do teatro na cidade, sete artistas locais vão apresentar peças solo, performances, cenas curtas e ministrar oficinas.

Com mais de 30 anos de carreira nas artes cênicas, a atriz maringaense Márcia Costa diz que sua relação com o teatro começou antes mesmo que tivesse consciência de que ele existia. "Tenho fotos aos cinco anos de idade na Creche Menino Jesus, aqui em Maringá, apresentando com meus coleguinhas as histórias que eu mesma inventava para as professoras”, relembra. E foi desde que participou de seu primeiro curso de teatro, aos 14 anos, que o elegeu como sua profissão, devoção e propósito de vida.

Foto: Renato Domingos

A trajetória de Márcia começou ainda na década de 80, no Grupo Escada, então ligado ao Centro de Ação Cultural da Prefeitura de Maringá. No decorrer dos anos, a atriz e educadora participou de montagens do Grupo de Teatro da UEM, em Maringá, da Trupe Teatral Bandalheira, do Teatro Guaíra, da Companhia Instável e do Projeto Palco Paraná, em Curitiba. No Mato Grosso, onde viveu por três anos, coordenou atividades artísticas e esportivas do Projeto Educarte, dentre diversas outras experiências com arte e educação.

“Não consigo pontuar apenas alguns momentos de minha carreira que foram importantes. Tenho plena convicção de que todas as experiências que tive com o teatro e como educadora foram importantes e me fizeram sempre estar em constante movimento em um processo dinâmico de aprendizagem, construção de habilidades e emoções que duram e reverberam em mim a todo instante. Sempre me lembro de meus mestres que em cada momento de minha vida me fizeram adentrar em universos múltiplos tanto estéticos como de ideias...”.

Ela se apresenta no Só em Cena nesta sexta (17), com o espetáculo Tempos de Cléo, um solo de rua contemplado pelo Prêmio Funarte de Teatro Myriam 2014 e apresentado pela primeira vez em 2015.

A Cléo, que inspirou a história da peça, é uma personagem real, moradora das ruas maringaenses. O solo foi montado a partir de uma pesquisa artística sobre formas de ocupação no espaço da rua, feita por um grupo de artistas que observava o cotidiano da andarilha, assídua frequentadora do câmpus da UEM (Universidade Estadual de Maringá).  “Primeiro veio a inspiração, que já instaurava um espaço e tempo sociais diversos dos que estamos acostumados, e que precisam ser enfrentados. Não basta simplesmente eliminá-lo como espaço da loucura, pois a suposta alienação da Cléo está diretamente ligada à nossa alienação do mundo social, fragmentação e desprezo pelo outro, que escondemos nos dizendo humanistas e outras coisas assim. Só conseguimos nos ver, como identidade, quando o outro, a alteridade, está posta diante de nós e não é desqualificada por ser diferente, mas produz o pensamento crítico”.

A peça conta com outras três mulheres na equipe principal: a direção é de Gabriela Fregoneis, a dramaturgia de Carolina Santana e a produção de Rachel Coelho.  

Foto: Renato Domingos

Além do espetáculo em que atua como atriz, Márcia leva também seu lado educadora para o Só em Cena. No próximo domingo (26), ela ministra a oficina Nossas histórias com objetos animados, uma iniciação técnica de manipulação de objetos para contação de histórias. “O contador se dispõe a sair do lugar de protagonista no momento em que está contando a sua história e direciona, transfere generosamente toda a “alma” e persona para o objeto”, explica. A oficina é gratuita e direcionada ao público geral. Para participar, basta ter interesse em aprender a contar histórias e enviar um e-mail para soemcena.maringa@gmail.com para conferir a disponibilidade de vagas.  

“Projetos como o Só em Cena nos dão oportunidades não só de mostrar nosso trabalho, mas de trocar experiências, estéticas, ideias e esse movimento enriquece nossa prática, fortalece nosso conhecimento de mundo, das dinâmicas culturais, pessoais e coletivas. Nos prepara para a ampliação dos horizontes e, com isso, acredito que nos capacite cada vez mais a efetivar transformações importantes e de interesse na sociedade”. 

 

Com mais de dez anos de carreira, o pedagogo, bonequeiro, escritor e contador de histórias, Danilo Furlan, deu o primeiro passo na área artística de uma forma pouco tradicional, quando aos 12 anos começou a trabalhar com animação de festas infantis. Foi essa a experiência que o levou a entrar para a Cia. Fantokids, grupo de teatro de bonecos que existe desde 1994 em Maringá, onde ele teve seu primeiro contato com a contação de histórias. “Foi quando entrei para o Fantokids que tive acesso às bibliotecárias Fernanda Mecking, Cirlei Ganeo, Gilda Carreira e Zery Monteiro e comecei a contar histórias”, conta ele.

Desde que deixou a companhia, em 2010, assumiu a contação de histórias como seu principal ofício, decisão que o influenciou na escolha do curso superior de Pedagogia, com o objetivo de levar o teatro de bonecos e as histórias para a área da educação. “Contar histórias é onde expresso a minha necessidade de me manifestar artisticamente. Isso me trouxe também a escrita, algo que estou experimentando com carinho e cuidado”.

Danilo tem sete livros escritos e, como bonequeiro, participou de grandes festivais de teatro no Paraná, como o FILO, em Londrina; o Festival de Bonecos de Curitiba; além de Campo Mourão, Foz do Iguaçu e Paranavaí. A experiência como contador de histórias atravessou as fronteiras do estado e já o levou a encontros no Rio grande do Sul, São Paulo e Sergipe.

Em 2017, o artista foi reconhecido com o troféu Baobá, um prêmio da Prefeitura de São Paulo pelo trabalho realizado com a contação de histórias.

“A oportunidade de ver trabalhos de todos os lugares do Brasil pode ser muito enriquecedora à nossa caminhada como artista. Fazer parte da programação do Só em Cena também valoriza o trabalho que fazemos na nossa cidade”.


No Só em Cena, Danilo se apresenta na próxima sexta-feira (24) para os alunos da Escola Municipal Criança Esperança, em Sarandi. “Neste trabalho trago um personagem que pode ter muitas histórias a contar, é um andarilho do mundo da imaginação. Tudo começa como uma página de papel em branco, as histórias vão surgindo e ganhando o mundo”.

Na peça O Fantástico Carrinho do Homem que Conta Histórias, ele conta histórias de seu próprio livro ‘Sai pra lá, Vira-lata’, e do livro ‘Mila’, da autora paulista Fernanda Munhão, “dentre outras histórias que vou gostando e colecionando para colocar em cena”. 



Aline Luppi Grossi, 23, começou no teatro em 2014, quando entrou na graduação em Artes Cênicas na UEM. Dentro da universidade, encontrou no potencial de discurso e ativismo imediato da Performance sua principal linguagem artística.

Aline faz parte do coletivo (SI)mento Urbano, que nasceu a partir de um grupo de pesquisa acadêmico e investiga questões ligadas aos diferentes tipos de corpos, suas subjetividades e identidades.  No Só em Cena, vai levantar essas questões com a apresentação da performance Soul Dessas, neste sábado (18).

“O teatro, pra mim, veio junto com o processo de descobrimento do meu corpo. Da construção, do entendimento de si. Eu sempre fui um corpo gordo e, nesse processo, eu me descobri e fui descobrindo qual é o lugar desse corpo na sociedade. Meus trabalhos partem disso, da questão da imagem, do discurso e do preconceito”.



Para Kênia Bergo, 21, o teatro e a performance são ferramentas poderosas para se discutir questões femininas e feministas. A estudante de artes cênicas faz parte da Artemísia Cia. Teatral, um movimento de resistência feminina na comunidade do teatro com foco em empoderar e dar voz às causas das mulheres. Na seguinda-feira (20), Kênia apresenta a cena curta Psicose 4:48, um texto da dramaturga inglesa Sarah Kane que aborda a loucura e o mundo interno do ser humano.

“As mulheres estão, cada vez mais, usando o corpo pra falar de si, da sua história e do seu lugar no mundo como mulher e como artista. E isso é importante porque faz as pessoas, o público, refletirem. Nós, mulheres artistas, falamos sobre buscar a liberdade do corpo, e a gente tenta minimamente mostrar pra outra mulher que ela não precisa seguir as regras que a sociedade impõe”.


Sophie Paz, 26, é acadêmica do curso de Artes Cênicas da UEM e também se apresenta na próxima segunda (20), com a cena curta Katrina.

“Eu vejo em Maringá uma cena teatral cada vez mais diversa, com cada vez mais estéticas, mais aberturas. E o público também está mais aberto a receber essas várias estéticas (...). O teatro, pra mim, está muito vinculado à educação. Não faz sentido fazer teatro e guardar aquilo pra mim. Acho que passar isso adiante é importante, porque do mesmo jeito que ele me trouxe liberdade e autoconhecimento, pode trazer pra quem assiste também”.

 


Formada em Letras e Artes Cênicas, Valéria Cardozo chegou ao teatro por meio da literatura. Foi a partir da paixão por livros de dramaturgia que a atriz teve seu primeiro contato com os palcos, em 2009. Hoje, é pesquisadora, arte-educadora e faz parte do grupo maringaense de teatro de bonecos Pau de Fita.

Ao Só em Cena 2017, Valéria leva sua paixão pela literatura para o palco com a peça Viva Lenora, um híbrido de cenas criadas a partir de experimentações cênicas, com base em textos poéticos e dramatúrgicos da literatura universal.

“O teatro aqui em Maringá tem muito a crescer. É uma caminhada. No entanto, do período que eu comecei até agora, já houve uma evolução gigantesca. Não apenas porque a universidade criou o curso de Artes Cênicas e acabou trazendo alunos de fora, pessoas com muita vontade de aprender e de fazer, também estimulou os grupos que já estavam aqui. Então acho que cada dia mais a gente tá caminhando para um crescimento e a cidade só ganha com cultura e arte”.

Leonardo Vinicius Fabiano teve seu primeiro contato com o teatro aos 10 anos e, desde então, não parou mais. Hoje, aos 21, transita entre o teatro, a dança, o circo e a performance, e planeja concluir a licenciatura em Artes Cênicas na UEM para se dedicar a lecionar.

O artista se apresenta no sábado (18), com a performance Srª Mídia mandou, eu obedeço (ou não), que discute os padrões impostos pela mídia e suas consequências na sociedade.

“É muito importante isso que anda acontecendo, essa migração de companhias, de espetáculos e de festivais que trazem uma galera de fora pra cá. Não só pra gente conhecer o que eles fazem, mas pra eles conhecerem o que a gente faz também (...). Eu acho que o teatro é uma troca. É você trocar com quem tá com você em cena, com seu diretor, com quem está assistindo e com o espaço”.

 
 

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