Circular Pocket

Toda a sapiência de Rincon, o rapper Manicongo

11/10/2017 | Texto: Rafael Pinto Donadio | Foto: Renato Stockler

Compartilhe


Danilo Albert Ambrosio, 32 anos, nasceu e cresceu na COHAB 1 Artur Alvim, na Zona Leste de São Paulo, capital. Quando ainda moleque, como a maioria dos brasileiros, pensava em ser jogador de futebol. A semelhança com o jogador colombiano Fred Eusébio Rincon lhe rendeu parte do apelido. Sapiência ele se apossou mesmo, se encantou com o significado da palavra. Manicongo veio de pesquisas e do orgulho de ser negro. “Vi que no império do Congo os reis eram chamados de manicongo. Como acho que é uma referência importante da gente dar, falar do continente africano, mas sem falar da escravidão, achei que esse nome se aplica muito bem”, explica Rincon Sapiência, vulgo Manicongo, em entrevista ao blog Farofafá, da Carta Capital.

O menino Rincon, aquele que ainda sonhava com a carreira futebolística, nunca teve aula prática e técnica de música, mas recebia influência de todos os lados: os sambas que dominavam as rádios nos anos 1990, a música black por parte dos pais, o rap pelo irmão mais velho, o rock e tudo mais que a sapiência de Danilo conseguia captar. O sonho da Copa do Mundo ficou para trás e a música tomou conta. Mas foi apenas aos 31 anos, depois de sete em que havia se profissionalizado na música – “quando eu saí do último trampo formal” – que Manicongo sentou ao trono.

“Galanga Livre” é o título do primeiro trabalho completo, depois de muitos singles. Misturando samples de Tom Zé, fazendo referências à cultura pop, Jorge Ben, Jimi Hendrix, blues e diversas outras influências, Rincon Sapiência faz, com 13 músicas e 46 minutos, um verdadeiro manifesto do movimento negro, do hip hop e do Mestre de Cerimônias (MC).
Ácido e dançante, ele mata, logo na primeira faixa, “Crime Bárbaro”, o senhor de engenho. Mesmo que isso traga ao “escravo” uma sensação de vitória e alívio, mas ao mesmo tempo medo por ser recapturado. E as mortes dos “senhores de engenho” continuam de diversas formas. Em “A Volta Pra Casa” e “Moça Namoradeira”, Rincon expõem a opressão, medo e assédios que mulheres sofrem diariamente na rua, no trabalho, dentro de casa, seja onde for. Mais um ideal a ser executado. O “senhor de engenho” também morre quando Rincon reverte o significado de palavras racistas. “A Coisa Tá Preta” vira no afrorap do paulistano uma frase de orgulho negro: “Orgulho preto, manas e manos / Garfo no crespo, tamo se armando / De turbante ou bombeta / Vamo jogar, ganhar de lambreta / Problema deles, não se intrometa / Óia a coisa tá ficando preta... Se eu te falar que a coisa tá preta / A coisa tá boa, pode acreditar / Seu preconceito vai arrumar treta / Sai dessa garoa que é pra não moiá.”

Hoje, Rincon Sapiência se apresenta na festa de quatro anos do projeto maringaense 16 Toneladas, dos DJs Estevão e Don Nattus. Os três ainda se apresentam ao lado do projeto paulista Discopédia, dos DJs Dandan (Criolo), Marco (Criolo) e Nyack (Emicida), no Espaço Vintage Eventos, a partir das 23h.
Mais informações sobre ingressos e pontos de venda, no evento do Facebook: 16 Toneladas 4 anos Rincon Sapiência & Discopédia.

- Nos primeiros segundos do disco já ouvimos um sample de Tom Zé. O nome da última música é uma referência ao Ponta de Lança Africano (Umbabarauma), de Jorge Ben. Cita Jimi Hendrix e “blues do Mississipi” em “Vida Longa” e tantas outras referências presentes no Galanga Livre. Quais as principais influências de Rincon Sapiência?
O disco Galanga Livre surgiu muito do rock. A ideia de fazer esse disco partiu do rock, principalmente do rock africano, porque existiu uma cena rock na Zâmbia, no Mali, na Nigéria. Na Zâmbia, inclusive, tinha uma cena bem constante chamada Zamrock e isso foi o que me impulsionou a fazer um disco um pouco mais instrumentalizado, com menos sonoridade digital. E foi influenciado por essa música dos anos 1970 ou rock clássico, como The Doors, Janis Joplin, Jimi Hendrix. E a partir disso foi criando outros conceitos de outras experiências também, principal passando pela música afro, mas quem deu o start para eu querer uma nova sonoridade, uma nova empreitada, foi o rock´n´roll.

- Me leva a outra pergunta. A sua vida musical começou como? Se não foi no rap, como chegou até ele?
Minha vida musical começou na música popular brasileira. O samba, principalmente o samba de rádio dos anos 1990. E também por influência dos meus pais de música black antiga, como Marvin Gaye, Michael Jackson. Por parte do meu irmão mais velho que veio a música rap, também nos anos 1990, meio que no mesmo período que o samba chegou. E no meio desse processo, já apaixonado por música, mais para metade e final dos anos 1990, aquela onda rock também. Na época eu não admitia tanto, mas hoje eu reconheço que bandas como Nirvana, Chico Science e Nação Zumbi, Planet Hemp, O Rappa, Cidade Negra, Skank, Pear Jam, Lenny Kravitz, entre outras são bandas que me influenciaram a fazer música

- As duas perguntas anteriores são para entender a mistura que o Galanga Livre traz. Como você pensou essa mistura musical do disco e também o afrorap (com berimbaus, ritmos de umbanda, ciranda etc)?
Essa salada de influência sempre foi natural. Sempre fui apaixonado por músicas em vários momentos. Tive esse momento do rap, do samba, música preta norte-americana, peguei a fase também da música eletrônica, do drum and bass, do jungle, do tecno. Teve a fase do reggae também, influenciado por bandas como Ponto de Equilíbrio, Mato Seco e na minha quebrada tinha muitas bandas de reggae também. Então, naturalmente, quando eu passei a ter domínio sobre fazer música todas essas misturas vieram à tona. Eu poderia dizer que a minha ligação e o meu trabalho com a música partem dessa mistura, então é algo natural, não é nada forçado.

- Você disse em entrevistas que se profissionalizou no rap em 2010. Foram sete anos para lançar o primeiro disco, um tempo considerado longo hoje em dia. Fale um pouco para nós sobre como aconteceram as composições e produção do Galanga Livre.
A princípio o Galanga Livre não era um álbum, eram músicas que eu tinha, pesquisas, produções, exercícios que eu fazia exatamente por não ter estudado. Na verdade eu cheguei a estudar um pouco de teoria, mas aula prática de técnicas de piano é uma parada que eu ainda não tive, então muitas das músicas partiram disso, de exercícios, de samplear, achar o tom do sample, arranjar em cima. Então, exercitando essas coisas, passaram a surgir músicas, produções instrumentais e tudo mais. Depois de um bom tempo que se tornou um plano de ser um disco. Aí eu fui contextualizando as músicas, ligando uma faixa com a outra, criando conceitos, criando linguagem musical, no caso o afrorap. Até que, depois de muitos anos, desde 2010, quando eu me profissionalizei, em 2017 foi quando eu estava preparado para lançar um álbum, divulgar, fazer clipe, veicular. Basicamente, foi esse o processo.

- Quem é o senhor de engenho morto logo na primeira faixa, “Crime Bárbaro”?
O senhor de engenho não precisa ser interpretado de forma literal, como um cara que está ali. Mas tem muitas pessoas que tem o poder de influência e, a partir deste poder de influência, geram conflitos. Então, muitas religiões, pelo seu poder de influência, geraram conflitos, intolerância religiosa, com outras religiões, que acreditavam em outros deuses e por aí vai. Existem muitos homens influentes, homens mesmo, masculino, e a partir disso foi-se criado um contexto social do qual o homem tem mais benefícios que as mulheres e isso precisa ser reavaliado. Existem contextos também influentes que fazem com que pessoas que procurem afetos de forma homoafetiva sejam hostilizadas, então este também é mais um “poder”, vamos dizer assim, a ser derrubado. Então, o “senhor de engenho” seriam esses ideais, que fazem com que algumas outras classes sejam oprimidas e reprimidas. Matar esses ideais é mais que necessário nos dias de hoje.


GOSTOU? AQUI TEM MAIS!