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Há mais de 20 anos no rap, Cris SNJ lança primeiro álbum solo

19/12/2017 | Texto: Laryssa Cunha | Foto: Divulgação

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Cultura de rua, luta por ideais e ideologias. O hip hop vem conquistando o mundo energeticamente e isso já não é mais segredo. Segundo a plataforma de streaming Spotify, o gênero ultrapassou o rock e foi o ritmo mais escutado nos Estados Unidos em 2017.

No Brasil, a cena do rap e a cultura hip hop atualmente propagam lutas contra o racismo, quebras de padrões e ainda batem ferozmente na tecla contra a desigualdade social vivenciada por aqui. Ano passado, no São Paulo Fashion Week, a estreia do Laboratório Fantasma marca do rapper Emicida e de seu irmão, Evandro Fióti, tornou-se um exemplo da representatividade e do empoderamento presentes no hip hop, agora introduzidos na indústria da moda.

Para entender melhor o cenário do hip hop, mudanças e rupturas de estereótipos, conversamos com uma das mulheres mais importantes da cena. Há mais de 20 anos no rap, Cris, que desde 2000 faz parte do grupo SNJ, é conhecida pelo discurso coerente, feminista, forte e militante. Além de tratar sobre essas questões importantes, também falamos sobre o disco, “Evoluindo através dos tempos”, lançado ano passado. Confere aí um pouco da visão dessa grande figura do rap nacional.


Você, que apareceu com o SNJ em 1996, ajudou o rap a ganhar a indústria fonográfica, exalando críticas e expondo a realidade do jovem na periferia. Nessa época, o discurso do gênero lutava explicitamente contra o racismo e a desigualdade. Como você enxerga o rap nacional dos anos 90?
Os anos 90 foram um dos períodos mais críticos pelo qual nosso país passou. Existia um quadro político conturbado, que resultava em uma grande crise social, principalmente com as questões trabalhistas, considerando que na década de 80 tivemos os primórdios das terceirizações.

Por isso, considero a década de 90 um momento no qual houve a necessidade do rap nacional, que surgiu como um modo de protestar contra o conjunto de mudanças que ocorriam na época. O rap, nessa fase, tornou-se um protesto provindo da periferia, do povo, que na maioria das vezes tem sua voz calada, sufocada. Eu vejo o rap dos anos 90, como uma expressão que nós pretos, favelados e periféricos encontramos de fazer política. Essa política das minorias, dos movimentos sociais. A política da parcela esquecida da população brasileira.

É interessante relembrar que, neste ano, completamos 25 anos do massacre do Carandiru, que ocorreu na década de 90. Esse trágico acontecimento gerou a explosão de uma crise do sistema prisional brasileiro, com inúmeras consequências que perduram até os dias atuais. Assim, o rap do grupo Racionais, na música “O diário de um detento”, que narra do dia 1 de outubro até o dia 3 de outubro, ficou para a história. E eu fico realmente feliz quando vejo jovens escutando e cantando esse rap, que narra um fato, uma notícia trágica e horrível. Essa música provoca novos questionamentos sobre esse fato. Por isso, o rap dos anos 90 é revolucionário, muda os meios de se passar informações e de se conhecer a realidade daqueles jogados à margem da nossa sociedade.


No início da carreira você canta que tudo tem o seu momento. Ano passado o momento realmente chegou com o lançamento do seu primeiro álbum solo, “Evoluindo através dos tempos”. Como foi o processo de composição e produção do disco?
Minha intenção era mostrar que devemos sempre que possível acordar dispostos a lutar e pedindo força para continuar, independente de quem é seu Deus, ou se você tem algum. O importante é pensar sempre que somos ilimitados, ou seja, seres que podem conseguir o que almejam, principalmente quando reconhecem o valor do próximo, exercendo a empatia e a solidariedade.  A primeira música do disco surge como um modo de reconhecer as transformações constantes e dinâmicas pelas quais estamos passando, mostrando que temos raízes e estamos dispostos a dar frutos, ou seja, que ainda temos esperança, porque essa é a única coisa que nos resta. Somos movidos pelo nosso anseio de mudanças, e eu mostro que devemos sonhar e fazer obras para concretizá-lo.

Assista a sessão ao vivo de Cris SNJ no Circular no Mojo!

 




(...) sabemos que o feminismo não chega às favelas como está inserido dentro dos muros das universidades. É importante termos clara essa questão, para começarmos a entender como faremos para o mesmo alcançar inúmeras meninas que se tornarão grandes mulheres no futuro.





Quando falo em processo, também penso nele ideologicamente. Para a construção e amarração das ideias do álbum, você procurou expor que tipo de lírica?
A minha composição lírica varia de acordo com a temática. A primeira música tem um foco voltado para importância da família e dos diferentes tipos de arranjos familiares, como o meu, pois sou mãe solteira de um filho de 15 anos. “Oh Jah” retrata o valor da humanidade, de reconhecer isso nos outros. Devemos participar da vida das pessoas e estar em um ambiente para agregar, não para dividi-lo. 

Na música “Sigo Voando”, por exemplo, mostro que posso fazer rap e assumir vínculos com os outros estando sempre disposta a buscar novidades para crescer, não somente na minha carreira, mas também como pessoa que busca estar em contato com os demais ao meu redor. Por fim, as últimas músicas buscam um empoderamento das mulheres, pois sabemos que o feminismo não chega às favelas como está inserido dentro dos muros das universidades. É importante termos clara essa questão, para começarmos a entender como faremos para o mesmo alcançar inúmeras meninas que se tornarão grandes mulheres no futuro.

A mixagem do “Evoluindo através dos tempos” chegou marcando presença. As batidas estão pesadas e envolventes. Como a questão de ritmo foi pensada para o CD?
A intenção era mesmo mostrar evolução, misturar ritmos. Quis misturar rap com reggae. Quis um som mais eletrônico na faixa “É nois que chega”. Um som mais envolvente como a música “Fogo contra fogo”, tem rap de peso no som “Bota pra andar”, enfim, outras foram fluindo.


O rap, atualmente, tem um marco de influência gigantesco no cotidiano de muitos jovens, principalmente porque trata de problemas sociais. Você, como mulher negra que faz parte do cenário e veio da periferia, acredita que o gênero vem sofrendo uma ruptura machista?
O gênero musical vem sofrendo uma ruptura com o machismo. Nesse ponto, acredito que não somente no rap, mas em outros ritmos como o funk, além de uma parcela da sociedade que assume a existência desse problema e começa a lutar contra o mesmo. Eu, como mulher negra, acredito que precisamos discutir o tema cada vez mais, devemos disseminar que estamos necessitados de mudanças nessa questão para que possamos construir uma sociedade mais igualitária. Mas isso é resultado de transformações sociais que irão refletir em todas as formas culturais, sociais e políticas vigentes.

O machismo mata mulheres diariamente. Assim, todos os dias as mulheres negras devem se lembrar que é preciso se empoderar e lutar por salários iguais, pelo direito de usar as roupas que sentimos vontade e não sermos consideradas mais um corpo negro no mercado e na mídia que insiste em nos vender.


Lutando pelas minorias, o rap é um gênero ativista também na questão racismo. Você enxerga o rap como uma afronta ao racismo? Por que?
Não há dúvidas de que o rap é uma afronta ao racismo. Estamos em um país que vive no racismo e que insiste em se manter no racismo. Cotidianamente somos lembrados de que devemos comemorar uma “consciência negra”. Ou seja, mesmo não sendo nós negros que inventamos o racismo, temos que conviver com o fato de que muitos defendem que o 20 de novembro não deve ser comemorado, ainda que sejam os jovens negros que mais morrem e mais sofrem com a violência policial.

Quando ouvimos as letras de rap que promovem uma reflexão, como no caso de “Pensamentos”, começamos a perceber o quanto há um racismo vivo e operante na nossa sociedade. Devemos ouvir as denúncias de quem realmente sofre com elas. Não estou afirmando que o racismo é problema somente dos negros, mas que esses devem ser considerados como fontes vivas de informações quando estamos tratando do tema. O racismo é um problema de todos, dos negros, dos não negros e dos brancos, e o rap mostra a visão desses que estão em contato diariamente com o mesmo, sentindo-o na pele.




Há um processo longo pelo qual a discussão de gênero já passou e ainda irá passar, mas tenho muita esperança que estamos no caminho certo (...)




Ainda sobre as questões de ofensas e mulheres lutando para se inserirem no gênero: você acredita que é mais difícil para mulher se envolver e cantar rap nos tempos atuais? Por que?
Sim, continua sendo difícil. Não devemos pensar que o fato de começarmos a discussão vai mudar uma estrutura de 500 anos. Há um processo longo pelo qual a discussão de gênero já passou e ainda irá passar, mas tenho muita esperança que estamos no caminho certo, pois cada vez mais vejo na minha família, com meus amigos e com todos que acompanham o meu cotidiano que as mudanças vindouras serão permanentes. E isso está acima desse governo que não me representa e de outras organizações políticas com o mesmo fim.

Com o tempo, nós iremos aprender a criar as nossas crianças com consciência do feminismo, quebrando algumas estruturas para que alcancemos a nossa almejada sociedade igualitária. Pode ser que não colhamos os frutos do que estamos plantando agora, mas precisamos plantar a igualdade, porque somente assim poderemos colher humanidades.


Anteriormente te perguntei como você via o contexto histórico do rap nos anos 90. Agora, gostaria de saber como você observa o cenário atual do rap e também do hip hop?
O cenário atual está muito interessante e promissor. Acredito que o rap está em um ótimo momento para crescer e emergir. Eu vejo o rap como um modo de passarmos uma história oral, sendo um método de pesquisa que se baseia na reconstrução de fatos orais.

Acredito que o rap tem esse poder de contar história e de fazer história baseada na memória difundida por um povo, uma sociedade, uma determinada população. Esse rap está preparando novas discussões, novas abordagens e maior representatividade. Dessa forma, penso que estamos em solo fértil. O rap atual será uma fonte para acompanharmos as mudanças que estão ocorrendo e compará-las em um futuro próximo, sendo uma fonte que perpetuará a história dos dominados e dos subalternos. Ou seja, o rap será a história contada e cantada do povo para o povo. Será nós por nós com os movimentos sociais que se somam na nossa trajetória.
 


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