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Lanches, bebuns e trabalho na madrugada

10/02/2017 | Texto: Ederson Hising | Foto: João Cláudio Fragoso

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As ruas podem até estar vazias numa madrugada maringaense de outono, mas muitos trabalhadores estão em plena atividade. Porteiros, vigilantes, policiais, chapeiros, taxistas, profissionais da saúde, do sexo, entre outros, convivem com o vento frio, a luta contra o sono, os ofícios específicos de cada lida e, invariavelmente, são perturbados por alguém que bebeu demais.
A Avenida Brasil não pulsa como em uma tarde comercial. Poucos carros trafegam, sacolas e folhas voam com o vento enquanto garis esvaziam lixeiras. Travestis ocupam esquinas. Usuários de crack preferem as marquises. A maioria opta pelos bares. Alguns avançam madrugada adentro; outros recolhem mesas. A fome não escolhe hora. Valter Costa Dória, 27 anos, o Valtinho, há poucos meses comanda um carrinho de lanches na esquina das Avenidas Brasil e São Paulo.




"Sempre tem movimento. A maioria estava bebendo em algum lugar", explica. Natural de São Paulo, acostumado com noites movimentadas, Lopes trabalha até quando a clientela ainda procura saciar a fome. Embora goste da capital paulista, a mulher, brinca ele, colocou uma "ideia fixa na barriga" e ficaram. 
Ponto comum na vida de muitos operários da noite é a jornada dupla. Valtinho é percussionista e toca com grupos de samba e pagode. Recentemente, participou da gravação do DVD de um amigo. "A gente tem que conseguir tempo para fazer as coisas que gosta. É importante ter tempo para você. A vida passa", filosofa, enquanto limpa a chapa.
O porteiro Jair Ferrioli, 51, também faz jornada dupla. Das 19h às 7h, trabalha num prédio na Vila Nova. As manhãs são para o merecido descanso, já que, no período da tarde, encara bicos de pintor de residências, além de fazer reparos e serviços elétricos. Seu Jair está próximo de se aposentar - faltam três anos. Não significa que vai parar de trabalhar.
 






Em maio, as boates e casas de shows - que ditam o ritmo de boa parte dos profissionais da madrugada - não abrem com a mesma frequência por conta da Expoingá, avisa o taxista Edson Miguel Lopes, 34, observador, que trocou as rodovias e o caminhão pelo trabalho na cidade. Não na mesma que a maioria vive.
Parte do trabalho deles é com a vida noturna dos fregueses dos bares. Mas há também os passageiros do aeroporto e rodoviária. Lá, a cachorra comunitária Nina, descansa entre as cobertas na casinha. Pouco movimento. No aeroporto, não é diferente entre a meia noite e as três horas. O fluxo de pessoas, em média 800, intensifica-se às quatro, com o início dos check-ins dos voos, principalmente para São Paulo.
Se na Cerro Azul alguém que extrapolou vomita atrás de uma árvore, nas ruas alternativas vê-se o fogo nos cachimbos improvisados. Nos hospitais, tranquilidade - na medida do possível. No Hospital Universitário de Maringá, o trabalho é mais tenso. Em geral, vítimas de acidentes ou de brigas. Um dos funcionários conta que muitas vezes é preciso acionar a polícia por conta de pessoas que tumultuam o ambiente.
Alguns trabalhos noturnos são peculiares. Caso do agente da Guarda Municipal (GM) Marcelo Clariano da Silva, 43, que é vigia do Cemitério Municipal. Madrugada sim, madrugada não, ele está lá. "O problema maior é o pessoal que gosta de entrar aqui. Até macumba deixam", diz.
Como já sabe os atalhos, as rondas de moto ficam facilitadas - precisa percorrer pelo menos 20 km por turno. Ele garante nunca ter visto nada sobrenatural. Porém, às vezes, se assusta. "Uma vez estava de moto entre os túmulos e senti uma pressão nas costas. Arrepiei e fiquei assustado. Quando fui ver, era a tampa da caixinha que fica na garupa que tinha soltado. Ri de mim mesmo", recorda.
Na infância, ele jura que tinha dois sonhos recorrentes: um era de peixes mortos boiando e o outro no cemitério. Treze anos depois de começar na prefeitura, cuidar da morada do mortos é o seu trabalho. "Ninguém quer trabalhar aqui. Uns têm medo de fantasma. Eu dou risada."
O ponteiro chega perto das 6 horas. O frio parece aumentar com a proximidade da manhã. As ruas ficam ainda mais vazias. Valtinho desliga a chapa. Os padeiros ligam os fornos. Seu Jair interfona e acorda alguns moradores para o trabalho. A engrenagem roda. Bom dia, Maringá.

*Texto originalmente publicado para o caderno especial “Maringá, 68 anos”, do jornal O Diário do Norte do Paraná, no dia 10 de maio de 2015.



 



 


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